Asma Brônquica Asma e Tabagismo - Algumas Considerações A poluição pela fumaça do cigarro aumenta a freqüência e gravidade de episódios de asma tanto em crianças como em adultos. A fumaça do cigarro contém milhares de substâncias que interferem na função celular e exacerbam a hiper-responsividade brônquica. A maioria dos estudos que investiga a inflamação na asma está centrada em não-fumantes, no entanto, acredita-se que a fumaça de cigarro possa modificar a inflamação brônquica associada à doença (1,2). Evidências epidemiológicas (2) demonstram que o hábito de fumar acelera o declínio da função pulmonar em pacientes com asma, embora os mecanismos de como isto ocorra não sejam ainda bem conhecidos. A Organização Mundial de Saúde estima que existam 1,25 bilhão de fumantes no mundo, sendo que 2/3 em países em desenvolvimento. Em países desenvolvidos um em cada quatro adultos fuma cigarros. A prevalência no sexo masculino nos EUA e no Reino Unido é de 26 e 27% respectivamente, sendo de 21 e 25% para o sexo feminino (3-5). No Brasil existem poucas informações estatísticas quanto à relação do hábito de fumar e a asma. Nos EUA e no Reino Unido o tabagismo entre os pacientes com asma oscila entre 17-35% (6-12). Acredita-se que nos países em desenvolvimento pelo menos 50% dos asmáticos fumam. Existem diferentes fenótipos relacionados ao início do hábito tabágico. Raherison et al. (13) observaram que a asma que se iniciou antes do início do hábito de fumar cigarros estava associada a atopia, enquanto aquela que se iniciava quando o indivíduo já se tornara um fumante estava associada a valores mais baixos do volume expiratório no primeiro segundo (VEF1). Tanto a morbidade como a mortalidade estão aumentadas em pacientes com asma e que fumam quando comparadas com os não-fumantes. Pacientes fumantes com asma apresentam mais sintomas (10,11) e utilizam mais medicação de resgate (14). O ato de fumar por si só pode determinar broncoconstrição aguda, embora a fumaça de cigarro não atue como um irritante agudo em todos os pacientes (15), somente nos suscetíveis. Atendimentos em serviços de emergência em decorrência de exacerbação da asma ocorrem com maior freqüência em grandes fumantes e após dias de maior poluição ambiental com altos níveis de ozônio (16). O sinergismo entre o hábito de fumar cigarros e a asma acelera o declínio da função pulmonar, maior do que cada item isoladamente. O Copenhagen City Heart Study analisou longitudinalmente a medida do VEF1 por um período de 15 anos e encontrou que a média da queda do VEF1 era maior em pacientes com asma que fumavam do que em não-fumantes (2). A média anual de declínio do VEF1 em pacientes masculinos com asma, com idades 40-59 anos, era de 33 ml em não-fumantes e 58 ml em fumantes (n = 150; p < 0,001) (2). A presença de hipersecreção crônica de muco e tabagismo estava associada a maior declínio do VEF1 (2). Apostol et al. avaliaram 4.000 adultos entre 18-30 anos por um período de 10 anos através de espirometria seriada. Encontraram queda do VEF1 de 8,5% naqueles sem asma que nunca fumaram (n = 2.393), 10,1% em não-fumantes com asma (n = 437) e 11,1% em fumantes sem asma (n = 514). A combinação de asma e tabagismo > 15 cigarros.dia -1 (n = 101) apresentava sinergismo, resultando em queda do VEF1 de 17,8% nos 10 anos analisados (12). As alterações nas vias aéreas decorrentes da fumaça de cigarro ocorrem por toxicidade direta ao epitélio brônquico, ação oxidativa, aumento da permeabilidade epitelial e recrutamento de células inflamatórias (17). Na asma leve, a contagem de eosinófilos no escarro induzido está reduzida no fumante quando comparada ao não-fumante, sem que haja uma explicação definitiva (18). Especula-se que esta redução seja decorrente do óxido nítrico exógeno na fumaça do cigarro que aumentaria a apoptose de eosinófilos ativados (19,20). No sangue periférico a contagem de eosinófilos também é baixa em fumantes com asma quando comparada com pacientes que nunca fumaram (21). Chalmers et al. evidenciaram em associação à inflamação eosinofílica observada em pacientes com asma, um aumento na contagem de neutrófilos no escarro induzido de pacientes com asma e que fumam (22). Neutrofilia no escarro induzido é encontrada tanto em fumantes com asma como em não-asmáticos, entretanto, o número absoluto de neutrófilos é maior nos pacientes com asma (22). Os níveis de IL-8 no escarro induzido estão aumentados em pacientes com asma que fumam. Existe correlação positiva entre as concentrações de IL-8 com a contagem de neutrófilos no escarro e com a história tabágica em maços/anos. Por outro lado, correlação negativa ocorre com o VEF1 em percentual do valor teórico (22). Estes dados, indiretamente, demonstram evidências para uma associação entre o hábito de fumar, inflamação brônquica e redução da função pulmonar em asmáticos que fumam. O remodelamento brônquico é mais intenso nos asmáticos que fumam. A rede longitudinal de fibras elásticas das vias aéreas, obtidas de pacientes com asma que morreram por outras causas, está aumentada em fumantes quando comparada a não-fumantes (23). Um aumento na área de fibras elásticas da submucosa seria capaz de alterar as propriedades mecânicas da parede brônquica. O uso de tomografia computadorizada com cortes finos de alta resolução para a análise estrutural anatômica pulmonar revela a presença de enfisema em grandes fumantes com asma associada (24). Embora não haja consenso (25), vários estudos têm apontado uma ação limitada dos corticóides por inalação em pacientes com asma e que fumam (26-29). Também a atuação do corticóide no tratamento oral de curta duração está alterada na asma crônica em fumantes (29). Estes dados sugerem que os fumantes com asma possam ser resistentes aos efeitos benéficos da terapia antiinflamatória com corticóides. Existem fatores relacionados que podem influenciar nesta resposta e que necessitam melhor avaliação tais como: início da doença e estágio de gravidade, duração e doses do tratamento com corticóide por inalação, história tabágica do paciente, intensidade tabágica em maços/anos etc. Vários mecanismos já descritos tentam explicar a resistência aos corticóides em fumantes com asma:
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