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Asma Brônquica

Tipos de Asma

Classificação/Fenótipos/Endotipos

Entende-se como fenótipo as características observáveis de um indíviduo que resultam da interação entre os genes que possui (genótipo) e o ambiente.

Um "fenótipo" de uma doença descreve as características clinicamente observáveis de uma doença sem que haja uma relação direta com a sua fisiopatologia subjacente. Descreve as características clínicas, morfológicas, bioquímicas, fisiológicas e a resposta ao tratamento. Fenótipo tem sido amplamente utilizado na asma, mas em grande parte indiscriminadamente. Uma grande variedade de características foi usada para descrever os fenótipos da asma (Figura 1).

Por outro lado, os 'endotipos' descrevem subtipos de uma doença definida por um mecanismo intrinsecamente patogênico e distinto.

Figura 1 - Características clínicas observadas para descrever os fenótipos da asma. Retirado de Agache I, et al. Allergy 2012:67;835-846.

Os fenótipos da asma são clinicamente relevantes em termos de desencadeamento de crises, gatilhos e resposta ao tratamento, mas não necessariamente se relacionam com ou fornecem informações sobre o mecanismo patológico subjacente da doença.

Os endotipos são, por conseguinte, uma forma diferente de classificação dos fenótipos, e descrevem
entidades mórbidas diferentes, com uma etiologia definida e / ou mecanismos fisiopatológicos consistentes2

Até o momento os critérios para caracterizar um endotipo não foram completamente definidos. Para se identificar foram selecionados sete parâmetros: características clínicas, genética, fisiologia pulmonar, epidemiologia, marcadores biológicos, anatomia patológica e tratamento. Por consenso foi proposto que cada endotipo deve reunir pelo menos 5 dos 7 parâmetros. Os parâmetros selecionados são considerados todos relevantes para a patogênese da doença, no entanto, estudos prospectivos são necessários para avaliar esta definição completamente.

Citamos aqui dois exemplos que cumprem ao menos as sete características pré-especificadas para serem rotuladas como endotipos, no caso:

* Aspergilose Broncopulmonar Alérgica (ABPA): características clínicas - severa, produtora de muco, doença de longa duração; biomarcador - marcada eosinofilia, IgE total e específica elevadas; fisiologia pulmonar - menor reversibilidade a obstrução; genética - HLA e rara variação com fibrose cística; histopatologia - bronquiectasias, eosinófilos e PMNs, granulomatose broncocêntrica; epidemiologia - início na idade adulta, longa duração, prognóstico ruim; resposta ao tratamento - corticoides, antifúngicos, omalizumab; mecanismo proposto - colonização das vias aéreas.

* Asma Alérgica (adulto): características clínicas - associada a aeroalérgenos, rinite alérgica; biomarcador - testes cutâneos positivos, IgE elevada, FeNO elevada; fisiologia pulmonar - broncoespasmo alérgico específico; genética - via TH2, polimorfismo de nucleotídio único; histopatologia - espessamento da membrana basal, eosinofilia; epidemiologia - início na infância, história de eczema; tratamento - responde ao corticoide e omalizumab e possivelmente a inibidores de IL-4-IL-13; mecanismo proposto - TH2 dominante.

Os fenotipos da asma podem estar presentes em mais de um endotipo e os endotipos da asma podem apresentar mais de um fenotipo.

Fenótipo : Asma eosinofílica :

Endotipos - asma alérgica (adultos) asma por aspirina, asma hipereosinofilica severa de início tardio, ABPA, asma pré-escolar.

Fenótipo: Asma propensa a exacerbações :

Endotipos - asma alérgica (adultos), asma por aspirina, asma hipereosinofílica de início tardio, asma pré-escolar, ABPA, asma exacerbada por vírus, asma pré-menstrual.

Fenótipo: Asma relacionada a obesidade :

Endotipos - obstrução ao fluxo aéreo causada por obesidade, asma severa dependente de esteroides, asma hipereosinofílica de início tardio.

Fenótipo: Asma de início na idade adulta:

Endotipos - asma por aspirina, asma induzida por infecção, asma hipereosinofílica de início tardio, neutrofílica.

Fenotipo: Limitação fixa das vias aéreas:

Endotipo - asma não eosinofílica (neutrofílica).

Fenotipo: Asma sem resposta aos corticoides:

Endotipo - asma não eosinofílica (neutrofílica), asma eosinofílica sem resposta aos esteroides, obstrução ao fluxo aéreo por obesidade.

As comorbidades não se icluem como parâmetro para definir um endotipo, já que estas podem influir em um fenótipo de uma doença porém não em um endotipo - obesidade, sinusite, doença do refluxo gastroesofágico, síndrome apnéia do sono ...

Historicamente, talvez a mais antiga forma de classificar a asma, e certamente a mais durável, seja aquela descrita após o relato de Meltzer, em 1910,3 de que a asma estaria associada à sensibilização anafilática. Ainda nesta década, tornou-se clara a correlação entre os aspectos clínicos da doença e a positividade de testes cutâneos, utilizando antígenos ambientais. A importância da sensibilização específica foi corroborada mais adiante pelo relato em 1919 de asma desencadeada passivamente em paciente que recebera uma transfusão de sangue de um doador sensibilizado por antígenos do pelo de cavalo.4 Estes pacientes, que demonstravam uma reação de hipersensibilidade a uma série de estímulos externos, foram classificados por Rackemann5 como portadores de asma extrínseca, enquanto que aqueles que não apresentassem uma causa definida eram rotulados como portadores de asma intrínseca. No consenso quase unânime dos especialistas o termo asma extrínseca é plenamente aceito, enquanto que o termo asma intrínseca sofre certa rejeição em decorrência de sua aplicação a um grupo heterogêneo de pacientes. As características de cada tipo de asma são descritas na Tabela 1.

Tabela 1 Características da Asma Extrínseca e Intrínseca.

 

A asma extrínseca está relacionada à predisposição genética para uma resposta do tipo I, ou resposta de hipersensibilidade imediata, contra uma extensa gama de estímulos externos ambientais. Os pacientes que produzem anticorpos IgE para mais de um antígeno são rotulados de atópicos. A asma extrínseca pode também resultar de uma exposição a uma grande variedade de compostos químicos orgânicos ou inorgânicos, como os diisocianatos, e etilenodiamina, os quais podem se manifestar como asma ocupacional, sem que haja participação mediada pela IgE (asma extrínseca não-atópica).

Um tipo menos comum de asma extrínseca pode ser desencadeada ou exacerbada pela presença de anticorpos precipitantes IgG, contra poeiras orgânicas como, por exemplo, as do fungo Aspergillus. Em pacientes previamente sensibilizados, a exposição a esta poeira pode causar uma reação de hipersensibilidade tipo III, determinando a deposição de imunocomplexos nas vias aéreas, causando sibilos e aumento da resistência das vias aéreas algumas horas após.

A asma intrínseca, também denominada asma criptogenética, ocorre em pessoas sem evidências de atopia. Os testes cutâneos são negativos para alérgenos específicos, sendo os níveis séricos da IgE total normais podendo estar elevados em cerca de 30% dos pacientes. A asma intrínseca tem seu início na idade adulta, e se caracteriza por responder mal aos broncodilatadores, necessitar de uso prolongado de corticoides e apresentar um declínio mais rápido nos parâmetros das provas de função pulmonar. As células T destes pacientes secretam IL-5, porém, em comparação aos portadores de asma alérgica, produzem reduzidas quantidades de IL-4. A asma intrínseca está associada a uma ativação anormal TH2, podendo ser considerada como uma reação de hipersensibilidade tardia.

O estudo imunopatológico através de biópsias brônquicas é semelhante em ambas, tanto na asma extrínseca como intrínseca, e é caracterizado por infiltrado eosinofílico, pela presença de células com receptores IgE de alta afinidade, além de elevada expressão de citocinas TH2 - IL-4, IL-5, IL-9 e IL-13.6 Está aumentada a expressão de quimiocinas que atraem eosinófilos como CCL11 (eotaxina), CCL7 (MCP-3) e CCL5 (RANTES) bem como do receptor comum as três, o CCR3.7 Uma redução no número de células que expressam o receptor IL-4 na asma intrínseca, quando comparada a asma extrínseca, tem sido relatada. Este fato esta associado a redução do número de células que expressam o fator de transcrição STAT 6, enquanto a expressão GATA-3 está aumentada tanto na asma atópica como na intrínseca.8 Existe um aumento no número de macrófagos no escarro de pacientes tanto com asma extrínseca com intrínseca, com expressão aumentada de IL-10 e IL-12 apenas em macrófagos de pacientes com asma alérgica.9 Os receptores de alta afinidade IgE (FceRI) são expressos tanto na asma intrínseca como extrínseca.10 A síntese de IgE local tem sido relatada em pacientes com pólipos nasais que estão mais associados a asma intrínseca.11 O aumento local da síntese de IgE pode ser o responsável pelas similaridades na ativação de mastócitos, células TH2 e eosinófilos encontrados tanto na asma intrínseca com atópica.

Enquanto que a inflamação na asma extrínseca é desencadeada por alérgenos exteriores, como o ácaro da poeira doméstica ou a descamação de pelos de animais como gato e cão interagindo com receptores de alta e baixa afinidade, na asma intrínseca, não se identificam alérgenos, embora a IgE local e os receptores de alta afinidade estejam presentes. Acredita-se que alguns pacientes com asma intrínseca apresentam uma sensibilização a um antígeno não identificado que possa ativar a maquinária celular. Outra possibilidade se relaciona a positividade para testes cutâneos na infância que tenham se tornado negativos na idade adulta, desencadeando a asma tardiamente > 40 anos. A ativação de mastócitos é comum em ambos os tipos de asma e é provavelmente o responsável pelas similaridades entre os dois tipos da doença, com sintomas produzidos por vários desencadeantes comuns, como o exercício e o ar frio, que ativam mastócitos sensibilizados com IgE acoplada a sua superfície.

Humbert et al.6 sugerem que na asma intrínseca ocorra uma produção local de IgE contra antígenos desconhecidos, possivelmente de origem viral ou mesmo auto-antígenos, enquanto que na asma extrínseca a resposta é direcionada contra alérgenos ambientais. Outro mecanismo relacionado a asma intrínseca é o desencadeado por um fator microbiano. A invasão das células epiteliais por Staphylococcus aureus (e outros microorganismos) determina a liberação de superantígenos estafilocócicos (Sag) (e outros superantígenos), os quais atuam nos linfócitos B, determinando a produção local de IgE policlonal que reagiriam posteriormente contra os superantígenos (SSa) que funcionariam como superalérgenos. Isto ocasionaria a ativação dos mastócitos e liberação de mediadores broncoconstritores e sensibilizaria os mastóciotos a ativação por fatores desencadeantes, como exercício e ar frio (via mudanças na osmolaridade da superfície). SSa também causam expansão policlonal de células T, resultando no aumento de células TH2 e CD8+. Células TH2 liberariam IL-4 que induz a expressão de receptores de alta afinidade (FceRI) nos mastócitos e a síntese de IgE pelas células B (junto com IL-13). A IL-5 seria a responsável pela inflamação. SSa podem também reduzir a resposta aos corticóides nas células T, resultando na necessidade de utilização de altas doses para o controle deste tipo de asma. SSa também inibem a função das células T regulatórias (Tregs), resultando em maior número de células TH2 e CD8+. SSa podem ativar células TH17, ocasionando inflamação neutrofílica. A infecção estafilocócica no epitélio brônquico pode ainda causar dano e expor epítopos na estrutura protéica epitelial, como a citoqueratina-18, resultando na formação de anticorpos citotóxicos IgG, com adiconal dano às celulas epiteliais, tornando-as mais susceptíveis a colonização microbiana12 (Figura 2).

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Uma outra forma de se classificar a asma é baseada na gravidade da doença, através da análise da frequência e intensidade dos sintomas, da avaliação das provas de função pulmonar e na necessidade do uso de broncodilatador e anti-inflamatório. Desta forma, a asma pode ser classificada em leve intermitente, leve persistente,  moderada persistente e severa persistente (Tabela 2). A asma severa, entretanto, apresenta características diferentes da asma leve e moderada, sugerindo que a mesma não seja somente uma extensão destas. Alguns autores acreditam que a asma severa possa constituir-se na realidade em uma "outra doença", com vários fenótipos, compartilhando inclusive semelhanças com a doença pulmonar obstrutiva crônica, como por exemplo a obstrução fixa.13

Tabela 2: — Classificação da Asma quanto a gravidade*

 

A diretriz da Global Initiative for Asthma 2017 (GINA) para a gravidade é baseada retrospectivamente no conjunto da terapêutica adotada e nos sintomas, podendo a asma ser controlada, parcialmente controlada ou malcontrolada (Tabela 3).14

Tabela 3: Avaliação do GINA para classificação do controle da asma em adultos, adolescentes e crianças entre 6-11 anos de idade.

Para fins meramente ilustrativos e ao mesmo tempo demonstrar o quanto é difícil classificar a asma, listamos vários fatores causais e/ou desencadeantes, sendo que nos próximos capítulos abordaremos os principais tipos da doença, ou como são abordados hoje fenótipos clínicos da asma brônquica.

Alérgenos

Pólens, poeira domiciliar, ácaros, esporos fúngicos, descamação de pelos animais (gato, cão, cavalo), emanações e escamas de insetos, alimentos (incluindo produtos inalados), drogas (penicilina), vacinas, parasitos etc. Estes são geralmente identificados por história clínica, aspectos sazonais e testes cutâneos.

Ocupacional

Poeiras orgânicas, aldeídos, isocianatos, anidridos, corantes, antibióticos (fabricação), farinhas e grãos, madeiras, solda, resinas, pesticidas, plásticos, tintas, animais de laboratório, enzimas, látex, algodão, metais, aminas etc.

Drogas (efeito farmacológico ou mecanismo desconhecido)

Propranolol e outros beta-bloqueadores, metacolina, metabólitos do isoproterenol, reserpina, narcóticos, aspirina e outros anti-inflamatórios não-hormonais, agentes anestésicos locais (bupivacaína, lidocaína), opiáceos, inibidores da ECA, aditivos alimentares (metabissulfito, tartrazina, glutamato monossódico).

Exercício

Esportes, atividades relacionadas ao exercício, asma induzida por hiperventilação, inalação de aerossóis não-isotônicos (asma osmoticamente induzida).

Irritantes

Odores e fumaças químicas, poluentes da atmosfera (ozônio, NOX, SO2 ...), fumaça de cigarro, ar frio, cosméticos, perfumes, mudanças climáticas (pressão barométrica e umidade), poeiras irritantes, refluxo esofagiano e aspiração, reflexo (vagal) por corpo estranho.

Infecção

Viral (rinovírus, sincicial respiratório, influenza...)

Bacteriana (Clamydia, Staphylococcus,...)

Psicogênica

Fadiga, ansiedade, depressão, estresse, riso franco e estrepitoso.

Circadiano

Condições simultâneas

Pré-menstrual, sinusite, pólipos nasais, hipertireoidismo, reflexo vagal, obesidade.

Referências:

1.Agache I, Akdis C, Jutel M, Virchow JC. Untangling asthma phenotypes and endotypes.Allergy 2012; 67: 835–846.

2.Lotvall J, Akdis CA, Bacharier L, Bjermer L, Casale T et al. Encotipos del asma: Una nueva aproximacion a la clasificacion de diferentes entidades dentro del sindrome asmatico. J.Allergy Clin Immunol 2011; 127:355-60.

3.Meltzer SJ. Bronchial asthma as a phenomenon of anaphylaxis. JAMA 1910; 55:1021.

4.Ramirez MA. Horse asthma following blood transfusion. JAMA 1919; 73:984.

5.Rackemann FM. A clinical study of one hundred fifty cases of bronchial asthma. Arch Intern Med 1918; 22:517.

6.Humbert M, Menz G, Ying S et al. The immunopathology of extrinsic (atopic) and intrinsic (non-atopic) asthma: more similarities than differences. Immunol Today 1999; 20:528.

7.Ying S, Meng Q, Zeibecoglou K et al. Eosinophil chemotactic chemokines [eotaxin, eotaxin-2, RANTES, monocyte chemoatractant protein-3 (MCP-3), and MCP-4], and C-C chemokine receptor 3 expression in bronchial biopsies from atopic and nonatopic (intrinsic) asthmatics. J Immunol 1999; 163:6321-9.

8.Christodoulopoulos P, Cameron L, Nakamura Y et al. TH2 cytokine-associated transcription factors in atopic and nonatopic asthma: evidence for differential signal transducer and activator of transcription 6 expression. J Allergy Clin Immunol 2001; 107:586-91.

9.Zeibecoglou K, Ying S, Meng Q, Poulter LW, Robinson DS, Kay AB. Macrophage subpopulations and macrophage-derived cytokines in sputum of atopic and nonatopic asthamtic subjects and atopic and normal control subjects. J Allergy Clin Immunol 2000; 106:697-704.

10.Humbert M, Grant JA, Tabora-Barata L et al. High affinity IgE receptor (FCeRI)-bearing cells in bronchial biopsies from atopic and non-atopic asthma. Am J Respir Crit Care Med 1996; 153:1931-7.

11.van Zele T, Gevaert P, Holtappels G, Van Cauwenberge P, Bachert C. Local immunoglobulin production in nasal polyposis is modulated by superantigens. Clin Exp Allergy 2007; 37:1840-7.

12.Barnes PJ. Intrinsic asthma:not so different from allergic asthma but driven by superantigens? Clin Exp Allergy 2009; 39:1145-51.

13.Wenzel SE. A different disease, many diseases or mild asthma gone bad? Challenges of severe asthma. Eur Respir J 2003; 22:397.

14.Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2017. Disponível na Internet via WWW. Arquivo capturado em: 04/07/2017.

Última Atualização: - 05/01/2019