Asma Brônquica Tratamento da Asma Modificadores de Leucotrienos Nos últimos anos ocorreram progressos no desenvolvimento de agentes que modulam a síntese ou ação dos leucotrienos (1). Sua utilização na prática clínica (Tabela 1) é direcionada para a asma induzida pelo esforço e ar frio, asma induzida por aspirina e na prevenção e controle da asma leve persistente. Sua utilização tem sido preconizada também quando se busca efeito aditivo ao tratamento da asma crônica, visando-se também a redução nas doses dos corticóides e broncodilatadores. Pacientes que não utilizam de forma correta os sprays podem beneficiar-se da terapia antileucotrieno por via oral, ressaltando-se ainda, que a aderência ao tratamento oral com comprimidos em certos pacientes é melhor do que com dispositivos por inalação. Outra indicação seria para os pacientes e crianças asmáticas cujos pais têm “corticosteroidefobia”. Os efeitos dos inibidores de leucotrienos em asmáticos incluem também a broncodilatação aguda, a melhora nas provas funcionais pulmonares, a redução dos sintomas diurnos e noturnos, com melhora na qualidade de vida. Tabela 1 – Indicações para a utilização dos modificadores de leucotrienos
A metabolização do ácido araquidônico requer inicialmente a ativação da 5-lipoxigenase, que ocorre através de sua interação com outra proteína chamada proteína ativadora da 5-lipoxigenase (também conhecida como ALOX5-AP ou FLAP), formando o HPETE, precursor do LTA4. O LTA4 sob ação da enzima LTA4 hidrolase forma o LTB4 , enquanto por outra via resultam os leucotrienos sulfidopeptídicos (LTC4, LTD4, LTE4). Quanto as estratégias terapêuticas para inibir os leucotrienos utlizam-se dois grupos de drogas: 1) as inibidoras da síntese de leucotrienos por inibição da 5-lipoxigenase ou de sua ativação e 2) as que atuam como antagonistas de receptores de leucotrienos (Tabela 2). Tabela 2 – Estratégias para inibir os leucotrienos
No mesmo grupo temos as substâncias que inibem a ativação da 5-LO pelo antagonismo à proteína ativadora da 5-lipoxigenase (FLAP) (MK-886, MK-0591, BAY-x-1005). Inibem a produção de LTB4, e determinam uma atenuação na resposta imediata e tardia da asma por alérgenos inalados (5). Recentes estudos utilizando o BAY-x-1005 na dose de 500 mg duas vezes ao dia durante três dias, antes e no dia do teste de provocação ao alérgeno, evidenciaram proteção de 60% na resposta asmática precoce 0 a 3 horas após exposição, e de 52,7% na resposta asmática tardia três a sete horas após a provocação (6).
Entre as várias drogas estudadas as mais potentes e seletivas são as de segunda geração: Zafirlucaste, Montelucaste, Pranlucaste (Figura 3), MK-679 (Verlucaste), SK&F 104.353 (Pobilucaste), LY 170680 (Sulucaste), LY 171.883 (Tomelucaste), CGP 45.715 (Iralucaste), Cinalucaste e RG 12.525 (5).
O Montelucaste sódico reduz a sensibilidade ao LTD4 inalado em cerca de 100 vezes ou mais no paciente com asma, enquanto que um valor de 20 vezes é considerado um pré-requisito para adequada inibição em humanos. Uma dose única de 40 mg de Zafirlucaste suprime quase que totalmente a resposta imediata da asma e reduz a hiper-responsividade à histamina seis horas após a provocação (10).
As atenções no momento estão direcionadas para estudos que avaliam os efeitos a longo prazo, na asma crônica (18-21). Investigações recentes em modelos animais de asma têm demonstrado que estes agentes podem controlar as respostas fibróticas observadas no remodelamento brônquico (22).
A dose do Zafirlucaste para uso na clínica é de 20 mg duas vezes ao dia, uma hora antes ou duas após as refeições. Estudo recente na asma moderada com o Montelucaste, em dose oral única diária de 10 mg, obteve proteção na broncoconstrição esforço-induzida por 12 semanas, sem o desenvolvimento de taquifilaxia, com mínimos efeitos colaterais (24). As doses do Montelucaste para uso na clínica são de 10 mg para > 14 anos, 5 mg para crianças de 6 a 14 anos e 4 mg para crianças de 2 a 5 anos, sempre em dose única diária, à noite ao deitar-se. Para pacientes pediátricos de 6 meses a 2 anos de idade a posologia preconizada é de 4 mg diariamente, através de sachê de grânulos orais, misturados ou não com alimentos. O Pranlucaste, ainda não comercializado no Brasil, é utilizado na dose de 450 mg em duas doses diárias. Para as crianças a dose preconizada é de 7 mg/kg/dia, aumentando-se até 10 mg/kg/dia de acordo com a idade e os sintomas, não excedendo 450 mg/dia. Como os alimentos afetam a biodisponibilidade, o pranlucaste deve ser administrado após o café da manhã e jantar. A comparação direta do Zafirlucaste e do Montelucaste com o Pranlucaste é muito difícil pois a maioria dos estudos foi efetuada no Japão, com protocolos diferentes. Todavia, existe um estudo americano com o Pranlucaste relatando melhora nos sintomas de magnitude similar aqueles descritos para o Zafirlucaste e Montelucaste (25). Entre os três antagonistas de receptores Cys-LT1 até o momento comercializados, o Zafirlucaste e Montelucaste apresentam biopotência semelhante, enquanto que o Pranlucaste apresenta uma biopotência de 3-5 vezes menor. Os inibidores de leucotrienos são bem tolerados. Não existem estudos avaliando a utilização prolongada. Seus efeitos adversos mais relatados são a dispepsia, diarréia e cefaléia (18,19). Existem relatos de aumento assintomático nas transaminases (3 vezes ou mais) em pacientes em uso do Zileuton (4-5%), com a dose de 600 mg quatro vezes ao dia (26), e com o Zafirlucaste (27) em doses acima das recomendadas. Quando do uso do Zileuton, recomenda-se a dosagem das transaminases antes do início do tratamento, mensalmente nos primeiros três meses e posteriormente a cada seis meses. O Zileuton diminui o clearance da teofilina, resultando em significante aumento nas concentrações plasmáticas da droga. O pranlucaste deve ser suspenso em caso de insuficiência hepática, pneumonia eosinofílica ou intersticial, leucopenia, trombocitopenia ou risco de anafilaxia. Alguns casos de síndrome de Churg-Strauss (SCS) foram relatados em pacientes em uso de Zafirlucaste, Montelucaste e Pranlucaste (28-30). Quase todos vinham em uso de altas doses de corticóides, por inalação ou por via oral, e se beneficiaram com o uso de modificadores de leucotrienos, que possibilitaram a redução das doses prévias de corticóide. O quadro clínico é típico da SCS e os primeiros sinais aparecem dentro de dias, até cerca de um ano após o início do tratamento da asma com antileucotrienos. A SCS foi descrita pela primeira vez em 1951 por Churg e Strauss que relataram 13 casos que apresentavam a asma como primeira manifestação. Estes pacientes evoluiram para asma severa até o aparecimento de febre e elevada eosinofilia. A SCS constitui-se em uma vasculite pouco freqüente, de etiologia desconhecida, também denominada de angiíte alérgica e granulomatosa (31). Em 1990, o American College of Rheumatology publicou os critérios diagnósticos da síndrome, que deve incluir pelo menos quatro das seis de suas características (Tabela 3). Tabela 3 – Critérios para o diagnóstico da SCS
A incidência da síndrome na população geral oscila entre 2,4 a 3,3 casos por milhão/ano (32-34), enquanto que em asmáticos oscila em torno de 60 casos/milhão/ano (34). Um terço dos pacientes apresenta asma severa que necessita de corticóides. Mononeurite multiplex é descrita em 72% dos casos enquanto que perda ponderal, febre, mialgia, lesões cutâneas (rash macular ou papular, nódulos, lesões hemorrágicas) e sinusite estão presentes na metade dos casos. Após os pulmões, o coração é o órgão mais acometido, contribuindo com 48% dos óbitos, principalmente por infarto agudo do miocárdio, pericardite aguda ou constritiva. A apresentação da doença é muito variável, sendo na maioria das vezes trifásica. As fases consistem de rinite alérgica e asma de graus variados, geralmente de início na idade adulta; eosinofilia e infiltração tecidual por eosinófilos; e vasculite geralmente grave que envolve múltiplos órgãos incluindo pele, pulmões, coração, trato gastrintestinal e sistema nervoso. Cursam com hemossedimentação elevada, níveis de IgE geralmente aumentados, sendo os anticorpos anticitoplasma dos neutrófilos (ANCA) positivos em 50-70% dos casos, sendo que este teste negativo não afasta a possibilidade de diagnóstico da síndrome.
Mais aceitável é a teoria de que o bloqueio dos receptores para cisteinil-leucotrienos pode provocar um desequilíbrio na estimulação dos mesmos, levando a um aumento de células B circulantes, e sendo os leucotrienos quimioatrativos de eosinófilos e neutrófilos, estaria preparando o campo para o desenvolvimento de vasculite. Mitsuyama et al. (36) dosaram o VEGF (Vascular Endothelial Growth Factor) sérico em 18 pacientes com SCS, 19 pacientes com asma e 12 com bronquite aguda. Encontraram valores significantemente elevados do VEGF na SCS, capaz de diferenciar a SCS da asma, com sensibilidade de 93,3% e especificidade de 81,8%. O infiltrado tecidual eosinofílico da SCS foi intensamente positivo para o coramento para o VEGF, sendo que os níveis elevados de VEGF demonstraram significante correlação com a contagem periférica do eosinófilos. Valores baixos do VEGF reduzem a possibilidade de tratar-se de SCS. Acredita-se que o VEGF possa estar associado à patogênese da SCS. Os valores de VEGF permanecem elevados por cerca de um mes apesar do tratamento com corticóide, caindo de forma drástica quando de follow-up após seis meses. A histopatologia é caracterizada pela presença de um infiltrado eosinofílico nas vias respiratórias altas e pulmões (Figura 6) bem como no trato gastrintestinal. A síndrome subseqüentemente pode evoluir para vasculite, evidenciando-se uma vasculite leucocitoclástica na pele ou envolvimento de grandes vasos com infarto. Em outros órgãos pode ocorrer necrose fibrinóide de pequenos vasos que é a responsável pelos achados de glomerulonefrite, miosite e mononeurites. Na maioria dos pacientes com SCS, a eosinofilia e os sintomas respondem rapidamente à terapia com corticóides e ciclofosfamida, sendo que alguns pacientes se beneficiam com o interferon-a (37).
Vários dos genes que participam na regulação da síntese de leucotrienos (p.ex. 5-LO e sintase LTC4) e na sua degradação têm sido estudados e avaliados como variantes funcionais polimórficas que podem interferir nas respostas terapêuticas destes agentes. Estas respostas variáveis parecem decorrer principalmente de modificações genéticas (mutações) da enzima 5-lipoxigenase. A taxa de transcrição do gene codificante da 5-LO, localizado no cromossomo 10, é controlada pelo seu promotor, mais precisamente pela região denominada de core promotor, que contém a seqüência única G+C-rica, localizada entre os pares de bases 176 e 147, upstream ao sitio de iniciação ATG, que contém repetições em tandem, sítios de ligação para dois fatores de transcrição, Sp-1 e Egr-1 (38,40). Variações genéticas na região core promotor podem mudar a ligação destes fatores de transcrição e a taxa de ativação transcricional da 5-LO quando ocorrem condições inflamatórias como, por exemplo, a asma. Uma família natural de mutações na região G+C-rica foi identificada consistindo de adição ou deleção destes sítios de ligação. A deleção de um destes sítios de ligação, a deleção de dois deles ou adição de outro, estão associadas a transcrição alterada do gene da 5-LO, quando comparada ao alelo comum. Uma alteração no número de repetições diminui a eficiência na gene transcrição. Drazen et al. (41) concluíram que pacientes que apresentam formas mutantes do promotor 5-LO podem ter diminuída a gene transcrição da 5-LO, sendo nestes pacientes a asma menos dependente da formação de leucotrienos e podem, portanto, ser menos sensíveis aos efeitos antiasmáticos da inibição da 5-LO. Pacientes com asma portadores destas variantes genéticas apresentam resposta diminuída ao tratamento com drogas antileucotrienos, indicando efeito farmacogenético das seqüências promotor nas respostas ao tratamento (42). Bibliografia: 01.Taylor IK. 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