Strict-Transport-Security: max-age=31536000; includeSubDomains; preload TRATAMENTO DA DOENÇA DO REFLUXO GASTRESOFAGIANO (DRGE) meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1" /> Asma/Tratamento do Refluxo Gastresofagiano :: Dr. Pierre d'Almeida Telles Filho

 

 

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Asma

DOENÇA DO REFLUXO GASTRESOFAGIANO E ASMA — TRATAMENTO

Introdução

O refluxo ácido pode desencadear broncoconstrição tanto pela microaspiração do conteúdo gástrico para as vias aéreas quanto por reflexos vagais ativados quando o ácido irrita o esôfago e a laringe.

Por outro lado, a asma também favorece o refluxo. A broncoconstrição aumenta o gradiente de pressão entre o tórax e abdome,1 facilitando o retorno ácido. Além disso, beta-agonistas usados como broncodilatadores podem relaxar o esfíncter esofagiano inferior e reduzir a força de contração do esôfago, efeito que se intensifica conforme a dose.2

o air trapping típico das crises asmáticas leva à retificação dos diafragmas, alterando o ângulo de His de agudo para obtuso. Essa mudança traciona o esfíncter esofagiano inferior, reduzindo sua competência e predispõe ao refluxo.3,4

Tratamento

As evidências demonstram que em linhas gerais as vantagens dos inibidores de bomba de prótons e bloqueadores competitivos de bomba de potássio no tratamento da asma parecem limitar-se aos pacientes que se apresentam com refluxo sintomático, assim como sintomas respiratórios noturnos.5 Em contrapartida, o refluxo assintomático – "refluxo silencioso" – não é uma causa provável para asma mal controlada. Assim, o tratamento empírico com supressores de ácido (IBPs e PCABs) não deve ser indicado rotineiramente para esse perfil de paciente.6 Entretanto, existem situações em que um teste empírico com um inibidor de bomba de prótons e mais recentemente com um bloqueador competitivo de potássio (PCAB) é considerado aceitável. Isto ocorre quando pacientes asmáticos apresentam sintomas típicos de doença do refluxo gastresofagiano (DRGE) como pirose, regurgitação, piora dos sintomas ao deitar e sintomas após refeições. Nessas situações, é apropriado iniciar o tratamento sem a necessidade de pHmetria esofágica ou endoscopia. Realiza-se um teste terapêutico de 8 a 12 semanas, avaliando-se se houve melhora da sintomatologia digestiva e da asma. Em pacientes com asma de difícil controle com fortes suspeitas clínicas de refluxo e quando coexistem elementos como: tosse predominantemente à noite, crises após deitar, rouquidão matinal, obesidade, hérnia hiatal já diagnosticada, piora após refeições copiosas, o tratamento também pode ser indicado. A supressão ácida empírica com um inibidor da bomba de prótons (IBP) tem sensibilidade razoável de 71–78%, no entanto a especificidade é baixa, cerca de 41–54%.7

A visão atual é que o tratamento anntissecretor deve ser direcionado à DRGE, e não à asma. A melhora da asma é considerada um benefício adicionalem pacientes com refluxo clinicamente expressivo, mas IBPs e PCASs não devem ser utilizados rotineiramente para controlar a asma em pacientes sem sintoma ou evidência objetiva dw DRGE.

Figura 1 – Fluxograma do tratamento do refluxo gastresofágico e asma associados.

Asma e DRGE nas Crianças –Tratamento

Nas crianças com asma e DRGE coexistentes, o principal cuidado é tratar cada doença de forma específica, evitar condutas empíricas com IBP, e sempre reavaliar se o refluxo piora o controle da asma antes de escalar o tratamento de qualquer uma delas. Muitas vezes identificar a associação entre asma e DRGE em crianças é difícil devido à sobreposição de sintomas, como tosse noturna, aperto no peito e perturbações do sono. Por isso, na asma de difícil controle, a investigação diagnóstica para a DRGE está indicada, pois a avaliação exclusivamente pela história clínica se torna insuficiente. Nesses casos considerar métodos objetivos para DRGE (endoscopia, pHmetria, impedâncio-pHmetria).

 A abordagem atual no tratamento da asma pediátrica é altamente seletiva e não recomenda o tratamento empírico do refluxo em todas as crianças com asma. O tratamento com IBP deve ser reservado para crianças que apresentam sintomas típicos de DRGE sintomática, não devendo ser utilizado na asma de difícil controle.8 a menos que o refluxo sintomático também esteja presente. Os IBPs devem ser prescritos para crianças somente quando claramente indicados, considerando o benefício potencial em relação ao risco.9,10 Para crianças deve-se priorizar o uso de inibidores H2 (ranitidina, famotidina) visando à segurança e eficiência.

Priorizar medidas não farmacológicas: elevação da cabeceira, evitar refeições copiosas ou gordurosas próximas ao horário de dormir, reduzir bebidas gasosas, evitar exposição ao cigarro, tratar a obesidade quando presente.

DRGE no Adulto

As modificações no estilo de vida (Tabela 1) continuam sendo essenciais antes de qualquer intervenção terapêutica para a DRGE. Além de elevar a cabeceira do leito os pacientes devem evitar refeições pelo menos 2–3 horas antes da hora de dormir. Certos alimentos como p. ex. chocolates, alimentos gordurosos, alimentos cítricos, pimentas, álcool e café podem diminuir a tonicidade do esfíncter inferior esofagiano (EIE) e irão causar aumento do refluxo gastresofágico. Tanto a morbidade como a mortalidade estão aumentadas em pacientes com asma e que fumam quando comparadas aos não fumantes. Pacientes fumantes com asma apresentam mais sintomas11,12 e utilizam mais medicação de alívio.13 A necessidade de parar de fumar é importante, pois fumar relaxa o EIE, favorecendo o refluxo. A obesidade demonstrou ser um importante fator de risco tanto para a asma quanto para o desenvolvimento ou agravamento da DRGE.14,15 A diminuição de peso reduz os sintomas de DRGE e a exposição do esôfago ao ácido. A relação cintura-quadril é mais importante do que o índice de massa corporal (IMC) em associação com a DRGE.16

Tabela 1 – Modificações do Estilo de Vida

Mudanças de Hábito
Evitar refeições copiosas, com alto teor de gorduras
Evitar bebidas carbonadas, café, álcool
Deitar-se somente após 2 h após a refeição
À noite, deitar-se 3 h após a última refeição
Elevar a cabeceira do leito em ± 15 cm
Parar de fumar

Os inibidores de bomba de prótons (IBP) (Tabela 2) se constituem no melhor farmacológico da atualidade para tratar a DRGE, e também na cura da esofagite erosiva e na prevenção de recaída dos sintomas e da inflamação esofágica,17,18 sendo superiores aos inibidores de H2. Quando administrado em dose suficiente (p. ex. 40 mg de omeprazol por dia durante sete dias), a produção diária de ácido pode ser diminuída em mais de 95%. Os IBPs inibem a secreção de ácido gástrico ao inativar as moléculas de H+, K+ –ATPase da célula parietal. A supressão de ácido ideal ocorre quando as bombas de prótons são ativadas quando a célula parietal é estimulada ao máximo após uma refeição.19 Todos os IBPs devem ser tomados pela manhã em jejum, cerca de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição para o controle ideal do pH, exceto o dexlansoprazol, que emprega tecnologia de liberação retardada dupla que leva a concentrações plasmáticas sustentadas do medicamento, propiciando, portanto, ser tomado a qualquer hora do dia.19

Tabela 2 – Tratamento Farmacológico da DRGE com Inibidores de Bomba de Prótons

Tratamento Farmacológico da DRGE com Manifestações Extraesofágicas como a Asma
Iniciar com Inibidores de Bomba de Prótons por 4 a 12 Semanas
Omeprazol Magnésico
40 mg
Pantoprazol Sódico
40 mg
Lansoprazol
30 mg
Rabeprazol Sódico
20 mg
Esomeprazol Magnésico
40 mg
Pantoprazol Magnésico
40 mg
Dexlansoprazol
60 mg

Naqueles pacientes em que não houver controle na liberação noturna de ácido, os inibidores H2 em dose única diária à noite podem ser úteis. Entretanto, podem apresentar o fenômeno da taquifilaxia, com diminuição de seu efeito, obrigando ao uso intermitente.20

O fumarato de vonoprazana, um bloqueador ácido competitivo de potássio, um fármaco mais recente, tem várias vantagens sobre os inibidores da bomba de prótons convencionais. Apresenta rápido início de ação (já nas primeiras 24 h), longa duração da supressão ácida, menos variações interindividuais em termos de supressão ácida, com mínima influência dietética em sua ação. Proporciona melhor controle do pH durante a noite e menor influência do metabolismo pelo CYP2C19. É uma opção especialmente útil em pacientes com DRGE refratária, com necessidade de resposta mais rápida ou com perfil metabólico que prejudica a eficácia dos IBPs. Vonoprazana 20 mg/dia excede a eficácia dos IBPs, sendo a dose de manutenção 10 mg.21,22 Do ponto de vista fisiológico, podem ser particularmente úteis em pacientes com refluxo noturno importante, resposta insuficiente aos IBPs e esofagite erosiva grave. Ainda não há evidências sólidas de que os PCABs proporcionem melhor controle da asma em comparação aos IBPs.

Quanto aos chamados procinéticos (Tabela 3), não são úteis como tratamento único. Potencializam de forma limitada a ação dos IBPs e antagonistas H2. Podem ser úteis quando coexistem sintomas dispépticos tipo dismotilidade. Levar em consideração seus efeitos colaterais no sistema nervoso e o prolongamento do intervalo QT.

Tabela 3 – Doses de Procinéticos

Doses de Procinéticos
Domperidona 10 mg 30 min antes refeições
Bromoprida 10 mg 4 x dia
Metoclopramida 10 mg 4x dia

Tratamento Cirúrgico

Indicado somente quando todas as tentativas de tratamento clínico já foram efetuadas, sem sucesso, com a falência do tratamento farmacológico, o que é raro na atualidade. A cirurgia indicada é a hiatoplastia. Os pacientes candidatos à cirurgia antirrefluxo devem se submeter a testes de pH antes do procedimento, se tiverem endoscopia normal e não houver histórico de testes semelhantes anteriores. Além disso, todos os pacientes devem se submeter à esofagomanometria de alta resolução antes da cirurgia para descartar acalasia ou outros distúrbios motores do esôfago, como ausência de contratilidade.

A intervenção cirúrgica consiste na recolocação do esôfago na cavidade abdominal, a aproximação dos pilares do hilo diafragmático e no envolvimento do esôfago distal pelo fundo gástrico — fundoplicatura pela técnica de Nissen, cuja indicação principal é a prevenção da aspiração, pela correção do refluxo. (Figura 2 [A e B ]) Esta técnica é a mais difundida em todo o mundo, mas outras variantes são feitas, todas com o objetivo de aumentar a pressão do EIE. Realizada por um cirurgião experiente, a cirurgia de fundoplicatura de Nissen é eficaz no tratamento da DRGE; no entanto, 10 a 20% dos pacientes apresentam efeitos colaterais como disfagia, distensão abdominal, dificuldade na eructação e vômitos.23

O fundo do estômago é tracionado por trás do esôfago, envolvendo-o. A porção do fundo gástrico, agora à direita do esôfago, é suturada à porção do fundo gástrico localizada à esquerda, assemelhando-se a um colarinho de camisa abotoado (Figuras 3 [C] ). Cria-se um mecanismo valvular, unidirecional, evitando-se o refluxo. A mesma cirurgia é efetuada por laparoscopia, que é menos invasiva, com baixa morbidade quando comparada à técnica aberta, que requer toracotomia/laparotomia. A recidiva utilizando a laparoscopia está em torno de 3,5%, bem menor do que 9-30% pela técnica aberta tradicional. Mais recentemente a via endoscópica vem ganhando adesões, especialmente em função do menor número de complicações e menor tempo de recuperação.

Mas se apesar de todas as medidas terapêuticas o paciente continua a apresentar sintomas, deve-se realizar a pHmetria de 24 horas e na eventualidade da suspeita de um refluxo "não ácido", quando a  presença de sintomas persiste, o paciente deve realizar o teste de impedância.24 O cateter é colocado em pontos de registro separados para avaliar o fluxo de líquido do estômago para o esôfago. O exame avalia a gravidade do refluxo, a presença de refluxo não ácido e a correlação entre o refluxo e os sintomas. Este procedimento ajuda na concepção de um curso de tratamento.

O uso de outros testes de diagnóstico, como teste de pH baseado em cateter, cápsula de pH sem fio (wireless), impedância + pH e outros são reservados para cenários clínicos específicos quando é necessário um gerenciamento adicional em pacientes que apresentaram parcial ou completamente falta de resposta ao tratamento com IBP.25 Na Tabela 4 são descritas as drogas que pioram o refluxo gastresofagiano.

Tabela 4 – Drogas que Pioram o Refluxo Gastresofagiano

PIORAM O REFLUXO GASTRESOFAGIANO
Reduzem a Pressão do Esfíncter Inferior
Causam Irritação Direta da Mucosa
Alimentos
Alimentos
Açúcar
Alimentos com tomate
Chocolate Alimentos condimentados
Café Produtos cítricos
Chá Maçã
Álcool Álcool
Medicamentos
Medicamentos
Teofilina Aspirina
Anticolinérgicos Tetraciclinas
Antagonistas α-adrenérgicos Quinidina
Benzodiazepínicos Drágeas de cloreto de potássio
Bloqueadores de cálcio Ferro
Nitratos β-agonistas

 


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Referências

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