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Asma Brônquica

Resposta Tardia da Asma

Células Endoteliais

A circulação pulmonar é primordial para as trocas gasosas no pulmão, com uma área de superfície vascular pulmonar total ~90 m2,1 sendo que todo o sistema vascular é revestido por células endoteliais que formam uma minicamada contínua.1 As células endoteliais são envoltas por uma membrana basal, uma fina camada proteica (50 nm de espessura) que consiste de lamininas, colágeno e proteoglicanos.2 As células endoteliais também são cobertas no lado luminal pelo glicocálice, uma rede de proteoglicanos e glicoproteínas envolvidas em múltiplos processos, como sinalização celular e hemostasia.3 Embutida na membrana basal há uma camada não contínua de pericitos, que são mediadores-chave de vários processos microvasculares, como proliferação de células endoteliais e angiogênese.4

As células endoteliais são também uma importante fonte para mediadores pró-inflamatórios e moduladores do tônus vascular. Expressam moléculas de adesão e secretam/ativam fatores de quimioatração que controlam o recrutamento de leucócitos. O papel de algumas destas moléculas e mediadores tem sido avaliado na reação alérgica. Interações entre células efetoras e células endoteliais têm sido demonstradas na alergia.

Sob estimulação, as células endoteliais têm a capacidade de alterar o tônus vascular pela produção de substâncias vasoativas. Fatores pró-relaxantes como prostaciclina e o fator relaxante derivado do endotélio (EDRF) são liberados por vários estímulos como hipóxia, acetilcolina, bradicinina e trombina e também por mediadores presentes na inflamação alérgica como a histamina e a serotonina. Como consequência da ação destes fatores de relaxamento ocorre vasodilatação local, com acúmulo de líquido e proteínas plasmáticas. Em oposição, contrabalançando a vasodilatação, atuam os fatores pró-contração, como a endotelina-1 (ET-1) que determina uma potente e prolongada ação vasoconstritora.

As células endoteliais produzem mediadores inflamatórios que além das propriedades vasoativas descritas apresentam a capacidade de gerar mediadores diretamente implicados nas reações alérgicas como os leucotrienos LTC4 e LTD4 (gerados através do LTA4 fornecido por neutrófilos),5 o PAF e o HETE.

As células endoteliais podem produzir várias citocinas e quimiocinas em resposta à injúria ou ao estímulo inflamatório, inclusive o alérgico. Após a exposição a lipopolissacarídeos (LPS), (IL)-1a/ß ou TNF-a, as células endoteliais regulam a hematopoese através da liberação dos fatores estimuladores de colônias, o GM-CSF, assim como o G-CSF e o M-CSF. Se as células endoteliais não têm a capacidade de secretar constitutivamente a IL-1, a própria IL-1, o LPS e o TNF-a podem ativar as células endoteliais a liberar IL-1 e expressar a IL-1 associada à membrana.6 Além de induzir a produção de GM-CSF, G-CSF e M-CSF pelas células endoteliais, a IL-1 modula outras propriedades das células endoteliais, dentre elas, a adesão de neutrófilos e linfócitos ao endotélio.

Entre as quimiocinas secretadas pelas células endoteliais, várias moléculas foram identificadas dentre elas: IL-8, MCP-1 e RANTES. A IL-8 apresenta propriedades de quimioatração para neutrófilos assim como para linfócitos7 e eosinófilos,8,9 estando diretamente implicada na inflamação alérgica. O RANTES além da ação de quimioatração para eosinófilos constitui-se em fator de ativação para o eosinófilo humano.10 Um estudo recente11 evidenciou que a produção de RANTES pelas células endoteliais encontra-se exacerbada pela combinação de TNF-a e INF-g enquanto que ambas as citocinas isoladamente não desenvolvem esta ação potencializadora.

O Vascular Endothelial Growth Factor (VEGF) é um fator de crescimento altamente específico para células endoteliais que é produzido em resposta à hipóxia.12 Induz a proliferação e migração celular e evita a apoptose das células endoteliais.12 O VEGF está aumentado em amostras de escarro induzido em pacientes com asma e está negativamente correlacionado com o VEF1.13

Na asma ocorre aumento da vascularização nas vias aéreas o que pode determinar estreitamento e consequente limitação ao fluxo aéreo.14 As biópsias brônquicas evidenciam mais vasos na asma do que no grupo controle sem o mal.15 A quantidade de vasos é proporcional à gravidade da doença, sendo que o remodelamento vascular aumenta à medida que a gravidade da asma progride. Esses vasos estão associados a importante recrutamento de eosinófilos.15

Referências

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04. Kutcher ME, Herman IM. The pericyte: cellular regulator of microvascular blood flow. Microvasc Res. 2009; 77 (3):235–246.

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10.Alam R, Stafford P, Forsythe P et al. RANTES is a chemotactic and activating factor for human eosinophils. J Immunol 1993; 150:3442.

11.Bevilacqua MP, Pober JS, Mendrick DL, Cotran RS, Gimbrone MA. Identification of an inducible endotelial-leucocyte adhesion molecule. Proc Natl Acad Sci USA 1987; 84:9238.

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Última Atualização: - 24/05/2020