Asma Brônquica Inflamação Alérgica Interações: Célula Apresentadora de Antígenos, Linfócito T e a sua Ativação Interações: Linfócito T Ativado e Linfócito B, sua Proliferação e Síntese de Anticorpos IgE Receptor para IgE – Receptor de Alta Afinidade FcεRI Ativação, Regulação, Degranulação e Apoptose dos Mastócitos – Mediação via IgE Interações entre a célula apresentadora de antígenos, o linfócito T e a sua ativação. Na asma alérgica as células dendríticas são as principais células apresentadoras de antígenos (APCs) e entre as APCs são as únicas a ativar as células T naives. Derivam do precursor CD34+ da medula óssea, e correspondem a 0,2% dos leucócitos no sangue, onde transitam por curto espaço de tempo. Recebem esta denominação por apresentar longos braços, ou dendritos, sendo encontradas em vários tecidos, particularmente na pele e nas mucosas. Constitutivamente produzem um alto nível de proteínas MHC Classe II e a proteína co-estimuladora B-7, estando presentes em grande número no epitélio e submucosa das vias aéreas superiores e inferiores. A mucosa está coberta por uma extensa rede de células dendríticas, que se encontram nos canais para e intercelulares que circundam as células do epitélio basal. Nos brônquios, o espaço intercelular lateral é isolado do ambiente externo por união compacta do epitélio. Para interagir com as células dendríticas, potenciais aeroalérgenos devem atravessar o epitélio para alcançar este espaço. Em todos os tecidos não-linfóides, as células dendríticas encontram-se em estado latente, também conhecido como estado imaturo, especializado para a captação de antígenos, que pode ocorrer por três mecanismos: via endocitose receptor-mediada, envolvendo clathrin-coated; via macropinocitose e via fagocitose particulada. Outras APCs são também encontradas constitutivamente ou sob condições inflamatórias no trato respiratório, como os macrófagos, os linfócitos B e os pneumócitos tipo II, os quais apresentam também funções na atividade imune e de supressão.
De forma sucinta abordaremos as múltiplas interações moleculares quando da apresentação de antígenos às células T (Figura 1). As moléculas MHC classe II são proteínas heterodímeras, compostas por duas cadeias polipeptídicas a e b, cada qual contribuindo com um domínio ao sítio de ligação ao peptídeo e um domínio de suporte semelhante à imunoglobulina. São sintetizadas no retículo endoplasmático da célula, de onde se transferem para o aparelho de Golgi, ligadas a uma terceira proteína chamada de cadeia invariante (Ii), que evita qualquer ligação prematura de peptídios endógenos ao seu sítio de ligação, até que ela atinja o local da degradação protéica extracelular. Uma segunda função da cadeia invariante é enviar moléculas MHC II para as vesículas endocíticas onde elas se ligam ao peptídeo. Do aparelho de Golgi, as MHC II são transferidas para vesículas onde se acumulam. Os peptídios antigênicos, provenientes de proteínas estranhas fagocitadas, degradadas e digeridas por enzimas proteolíticas da família das catepsinas, apresentam um tamanho que varia de 13-18 aminoácidos de comprimento e acumulam-se nos fagolisossomos da célula. Posteriormente as vesículas que contêm as MHC classe II se fundem com os lisossomos, em ambiente ácido, dissociando-se das cadeias Ii, permitindo que os peptídeos provenientes dos antígenos fagocitados se unam à fenda de ligação do peptídeo da molécula MHC (2). Os complexos resultantes desta fusão são carreados para a superfície destas células, onde linfócitos CD4 + T auxiliares (TH2) residentes intra-epiteliais os reconhecem através de receptores específicos de sua superfície (TCR), compostos heterodímeros constituídos por um par de cadeias polipeptídicas (a/ß ou γ/d) (17) cuja análise da seqüência de aminoácidos mostra uma grande similaridade com a estrutura domínio das imunoglobulinas. A ligação do TCR ao MHC + peptídio representa um complexo trimolecular.
A ativação das células T naives requer uma sinalização direta por duas vias:
Uma vez que o TCR tenha reconhecido seu antígeno cognato apresentado pela molécula MHC II, o próximo passo é a transmissão de um sinal da superfície da célula, onde ocorre o reconhecimento até o núcleo da mesma, para que a célula T passe do estado “inativo” para o estado de “ativação”. Para isto, torna-se necessária a alteração na gene expressão no núcleo da célula. Normalmente este tipo de sinalização através da membrana celular envolve uma proteína transmembrana que apresenta duas partes: uma região externa (ligante), cuja função é a de ligar-se à molécula que está fora da célula e uma região interna que inicia a cascata bioquímica que conduz o sinal ao núcleo celular. As cadeias aß do TCR apresentam um domínio extracelular que se une ao seu ligante (combinação da molécula MHC e o peptídeo). Além de terem o TCR ligado ao complexo MHC-peptídio, as células T devem também receber sinais de co-estimulação antes que elas possam ser ativadas. O sinal de co-estimulação mais bem estudado é aquele constituído por uma família de moléculas expressa na superfície das APCs, chamada B7. As moléculas desta família, a B7-1 (CD80) e a B7-2 (CD86), produzem a co-estimulação das células T pela ligação a receptores de sua superfície. Dois destes receptores foram identificados: CD28 e CTLA-4 (cytolytic T lymphocyte associated antigen-4). A maioria das células T expressa o CD28, enquanto que o CTLA-4 somente é expresso após a ativação da célula, podendo funcionar como um regulador negativo (“desativador”). Além das moléculas B7, as APCs secretam citocinas que também contribuem para a co-estimulação. O que tem sido descrito é que diferentes APCs em diferentes lugares expressam diferentes combinações de moléculas co-estimuladoras e citocinas. Por exemplo, os macrófagos expressam B7-1 e a citocina IL-1; as células dendríticas expressam iguais quantidades de B7-1 e B7-2; as células B ativadas expressam mais B7-1 do que B7-2. A conclusão mais plausível é de que diferentes APCs produzem diferentes tipos de sinais de co-estimulação para as células T e estes diferentes sinais podem influenciar os tipos de citocinas que as células TH produzem. Além da apresentação de antígenos peptídicos específicos por moléculas MHC, outros sinais são necessários para a ativação dos linfócitos T (CD25) como a IL-1 secretada pelas células dendríticas e a própria interação física entre as duas células. Uma vez ativados, os linfócitos T apresentam em sua superfície receptores para sua autoproliferação. Isto ocorre após as células T serem ativadas, pois necessitam proliferar (clonagem seletiva) e esta proliferação é acionada pelas citocinas como a IL-2 que atua como um fator de crescimento. As células T estimuladas via TCR, em ausência de sinais de co-estimulação, são incapazes de secretar a IL-2 e de ativar-se e por esta razão entram em um estado anérgico. As células T ativadas passam então a secretar citocinas necessárias para ativar os linfócitos B. Interações entre o linfócito T ativado e o linfócito B, sua proliferação e síntese de anticorpos IgE. Os linfócitos T induzem as células B a secretarem a imunoglobulina E (IgE) através do que se convencionou chamar de modelo dos dois sinais. O primeiro é fornecido pelas interleucinas 4 e 13 (IL-4 e IL-13) sintetizadas pelos linfócitos TH2. 18,19). Os mastócitos, os basófilos e os eosinófilos também produziem IL-4, enquanto que a IL-13 também é sintetizada pelas células NK. As IL-4 e IL-13 compartilham a cadeia α do receptor IL-4 (IL-4Ra), quando estas citocinas se ligam aos receptores nas células B. Uma vez acopladas, resulta a translocação para o núcleo do signal transduction-activated transcription (STAT-6), o qual estimula a transcrição do lócus do gene Cε, contendo seqüências codificadoras (éxons) para as regiões constantes da cadeia pesada e da IgE. O segundo sinal ocorre, por contato, através da interação entre a proteína transmembrana chamada Ligante CD40 (CD40L ou CD154) expressa na superfície dos linfócitos T auxiliares ativados, com o receptor CD40, uma molécula co-estimuladora dos linfócitos B (6-8). Esta ação mútua entre as duas moléculas desencadeia uma reorganização genética (deletion switch recombination) que aproxima todos os elementos da cadeia funcional pesada ε. O resultado é uma completa codificação genética multiéxon da cadeia pesada ε. A combinação destes dois sinais determina um desvio de classe para a IgE e proliferação das células B. Uma vez sintetizados e ativados (um só linfócito B é capaz de produzir mais de 10 milhões de anticorpos por hora), os anticorpos IgE circulam por curto período de tempo no sangue antes de se ligarem aos receptores de alta afinidade (FcεRI) na superfície dos mastócitos teciduais, nos basófilos do sangue periférico e a receptores IgE de baixa afinidade (FcεRII, ou CD23) na superfície de linfócitos, eosinófilos, plaquetas e macrófagos. Desde o final da década de 1960 a relação entre a síntese de anticorpos da classe IgE e a resposta imediata de hipersensibilidade contra alérgenos ambientais (sensibilização) está bem estabelecida. A IgE (o "E" foi escolhido devido ao eritema e pápula da reação cutânea alérgica) apresenta um peso molecular de 188 kDa. A sua concentração sérica Uma reação dita precoce ou imediata se manifesta por aumento da resistência das vias aéreas, 10 a 15 minutos após contato com o alérgeno nos pacientes sensibilizados. Neste estágio a obstrução brônquica é reversível espontaneamente ou através de inalação de um broncodilatador. Imediatamente após a inalação do alérgeno, os mastócitos tipo MCT (fenótipo que contém triptase) no pulmão e os mastócitos tipo MCTC (fenótipo que contém triptase e quimase) predominante na mucosa nasal (9), sensibilizados previamente pela IgE, são ativados pelo acoplamento do antígeno (ligação cruzada) aos receptores IgE da superfície de sua membrana celular. Deve ser salientado que ambos os tipos de mastócitos expressam o receptor de alta afinidade FcεRI e podem, portanto, participar das reações alérgicas dependentes da IgE. Funcionalmente, entretanto, os dois tipos de célula apresentam diferenças: o MCT está relacionado ao sistema imune, enquanto que o MCTC apresenta ações de angiogênese e remodelamento tecidual (p.ex. fibrose), sem ações imunológicas protetoras.
Os mastócitos originam-se na medula óssea, entram na circulação em pequeno número, como células mononucleares CD34+, antes que possam ser morfologicamente identificados. Expressam em sua superfície uma variedade de moléculas de adesão que podem promover sua fixação às outras células, incluindo em particular as células endoteliais. Migram para os tecidos sob influência de citocinas, onde sofrem processo de maturação até adquirirem seu fenótipo final, de acordo com o microambiente. Por último, os mastócitos apresentam a característica de migrar para a superfície epitelial das mucosas após provocação antigênica. Nos pulmões, a reação antígeno-induzida determina a liberação de mediadores de um pequeno número de mastócitos localizados na luz brônquica, o que pode determinar aumento da permeabilidade local e aumentar a exposição antigênica aos mastócitos de localização mais profunda, como os da submucosa, os das glândulas mucosas e da musculatura lisa. Sua sobrevida varia de semanas a meses. Na mucosa das vias aéreas existem cerca de 20.000 mastócitos por mm3 (24) e representam 1 - 2% das células alveolares (Figura 5). Provavelmente também proliferam nos tecidos. Os mastócitos exibem um fenótipo heterogêneo e isto tem sido demonstrado em função de sua aparência quando corado e a seu conteúdo de proteoglicanos. O proteoglicano dominante do mastócito humano é a heparina, que constitui mais de 75% do total, sendo o restante composto por uma mistura de condroitina sulfatos. O mastócito das mucosas contém a protease triptase e tem sido funcionalmente associado ao sistema imunológico e a reações de defesa do hospedeiro. Receptor para IgE - Receptor de alta afinidade FcεRI
A cadeia β com 263 aminoácidos transpõe a membrana celular quatro vezes e as duas cadeias γ com 86 aminoácidos se prolongam a considerável distância no citoplasma. O receptor FcεRI interage com os domínios CH3/CH3 e CH4/CH4 da molécula de IgE via dois domínios immunoglobulin-like da cadeia alfa. O FcεRI envolve um simples domínio Cε3, fazendo contato em ambos os lados ou interage com faces opostas do domínio Cε3 de um lado da IgE. As cadeias beta e gama estão envolvidas na transmissão de sinais que partem da superfície da célula, ocorrendo uma série de eventos na membrana e citoplasma (transdução de sinal, tradução e amplificação de sinal e ativação de proteínas alvos/efetoras) do mastócito, utilizando Ca 2+ e mecanismos energia-dependente
Ativação, regulação, degranulação e apoptose dos mastócitos – Mediação via IgE. Os mastócitos são ativados pelo acoplamento do antígeno (ligação cruzada) (Figura 8) aos receptores IgE da superfície de sua membrana celular, resultando em agregação dos receptores FcεRI (alta afinidade para a região Fc da IgE) e através de uma sinalização intracelular, caracterizada pela fosforilação do ITAM (intacellular immunoreceptor tyrosine-based activation motif), domínios do receptor das cadeias- ß e -γ . A agregação ativa o signal-initiating kinase , LYN, que fosforila tirosinas nas subunidades FcεRI-ß e - γ, criando sítios de ligação para o signal-propagating-kinase, SYK. O recrutamento e a ativação do SYK determina em minutos:
Publicações recentes indicam que o monômero da IgE (ausência de acoplamento em ligação cruzada) pode tornar o mastócito resistente a apoptose induzida pela privação de fatores de crescimento in vitro e, sob certas circunstâncias, pode induzir a liberação de citocinas. Desta forma o acoplamento da IgE ao FcεRI pode influenciar a sobrevivência do mastócito direta ou indiretamente, podendo também regular a função celular. A ligação monomérica da IgE ao FcεRI aumenta a expressão do FcεRI na superfície, a qual está associada ao aumento da sensibilidade ao estímulo antigênico e ao aumento da produção de mediadores e citocinas após o acoplamento. Dependendo das circunstâncias, o acoplamento no FcεRI pode aumentar a sobrevivência ou a proliferação dos mastócitos, promover a apoptose ou não ter conseqüências na sobrevivência. As decisões sobre a sobrevivência ou morte dos mastócitos são influenciadas por vários fatores endógenos ou exógenos. Os fatores endógenos incluem as citocinas secretadas pela própria célula, receptores de citocinas, moléculas de adesão, caspases, proteínas da família BCL-2, moléculas de sinalização intracelular (proteínas e lipídeos) e fatores de transcrição. Na Os grânulos secretórios dos mastócitos contêm um complexo cristalino de mediadores pré-formados, ionicamente ligados a matriz de proteoglicanos. Quando os mastócitos são ativados, os grânulos se expandem e movem-se em direção à membrana celular. Após a fusão dos grânulos com a membrana celular, o conteúdo granular perde a natureza cristalina, o complexo se torna solúvel e os mediadores como a histamina, as proteases e os proteoglicanos são liberados para o ambiente extracelular por um processo de difusão passiva, chamado de exocitose (Figura 9). O mediador mais conhecido dos mastócitos é a histamina, que se encontra presente nos grânulos em concentrações de 100 nmol/l, equivalente a 1-4 pg por célula, dependendo do número de grânulos presentes. A histamina participa na reação alérgica imediata, desenvolvendo vasodilatação com aumento da permeabilidade vascular, contração da musculatura lisa brônquica e intestinal, e aumento da secreção de muco. Sua ação é curta pois a histamina é rapidamente metabolizada em 1-2 minutos, sendo 70% metabolizados pela histamina- N -metiltransferase e 30% pela diamino oxidase (histaminase). Os efeitos da histamina dependem do tipo de receptor encontrado nos tecidos: H1 - contração do músculo liso, H2 - dilatação dos vasos sangüíneos e H3 - inibição da liberação da noradrenalina. Na atualidade credita-se aos mastócitos um papel bastante relevante na orquestração das respostas inflamatórias alérgicas pois, além do exposto, os mastócitos tanto em roedores como em humanos expressam moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC), podendo ter participação na apresentação de antígenos às células T (15-17); secretando IL-4 e IL-13, podem manifestar potencial influência na produção de IgE pelos linfócitos B (18,19); e são também capazes de regular a diferenciação celular TH2 (20,21). Os mastócitos podem causar mudanças estruturais via produção de laminina, colágeno IV e ativação de fibroblastos. Os mediadores produzidos durante o processo de degranulação dos mastócitos podem ser divididos em quatro grupos (Tabela 1): Moléculas pré-formadas e armazenadas nos grânulos; Moléculas formadas durante o processo de degranulação;
Proteínas recentemente sintetizadas, transcritas horas após a iniciação da degranulação;
Material macromolecular derivado dos “grânulos matrix” que podem ter seus efeitos perpetuados por um período prolongado, após a degranulação.
Tabela 1 - Mediadores Liberados pelos Mastócitos
O lavado broncoalveolar, na fase precoce da asma (22), demonstra aumento das concentrações principalmente de triptase, histamina, LTC4, LTD4, LTE4, PGD2, PGF2 (9-a, 11-ß) e tromboxane, todos potentes broncoconstritores, e que determinam também aumento da permeabilidade vascular, aumento da produção de muco e estimulação nervosa aferente. O que até aqui foi descrito configura a resposta imediata que ocorre entre 10 e 15 minutos após exposição ao antígeno e que geralmente se resolve em duas horas. Um segundo período de broncoconstrição ocorre em 30 a 70% dos pacientes e configura a resposta asmática tardia, que se inicia 3 a 4 horas após a inalação, podendo durar mais de 24 horas (Figura 11).
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